segunda-feira, 19 de maio de 2008

BIFE CRU

O cretino odiava a hora do intervalo; aquela algazarra, as garotas pelos cantos, reparando em todas as outras que não eram do seu grupo e fofocando, e as que não eram efetivamente do grupo das línguas de trapo, também fofocando da mesma forma, delas e de todos. O assunto principal naquela semana era mais que especial. Todas falavam de Vera, a professora de Ciências Físicas e Biológicas, que expulsou o marido de casa e pediu desquite no Fórum. Até na secretaria e saleta de professores ouvia-se cochichos, todos pasmos com a audácia dela, Vera do CFB.

Os garotos, por sua vez, chutavam bola desvairadamente ou corriam como animais enlouquecidos, fora os que cultivavam fios no rosto e tentavam beijar as chatas, aquelas, ora de surpresa, roubando, ora na marra, sem nunca ter sucesso. Hilário estava passando por seus treze azarados anos (azar causado pelo cosmos e tal). Bom mesmo era quando os guris do segundo ano lembravam dele, pensou, convidando para a rodinha seleta nos fundos da escola, atrás dos banheiros. Ah! Repensou... Os quase vestibulandos ficavam ali, comentando uns com os outros qual foi a fácil que deixou pegar nos mamilos e quem pegou, mesmo que rapidinho, no pênis deles. As galinhas, assim eles se referiam às pobres mocinhas que o nosso quase herói sabia nunca deixaram que tocassem seus seios ou que pegaram acolá de nenhum desses difamadores espinhentos, eram sempre as mais bonitas.

Hilário, que nasceu provido de uma inteligência acima da média, ficava ouvindo as mentiras e vendo o futuro; aquele casado com aquela, o outro com a galinha mais safada, todos adultos e esquecidos desses papos para o bem da população que, de tão escassa, tinha os pares já predestinados na ínfima cidadezinha em que moravam. E, ainda vendo o futuro, não se via com nenhuma delas ou assistindo a nenhum desses casórios. Ele ia mesmo para aquele lugar fedorento no final do colégio era por causa da vodca... Sempre havia um da turma que levava garrafa e daí o cretino dava goles largos o quanto quisesse. Quando isso acontecia, as duas últimas aulas ficavam mais interessantes que as de astronomia. Mas hoje não foi convidado, então lhe sobrou o odioso amontoado no pátio.

Foi quando priscilinha, do oitavo ano, sentou no banco à sua frente e cruzou as pernas, deixando para ele a calcinha toda à mostra. Hilário nem tentou desviar o olhar porque, vendo o futuro, mais uma vez sabia que não conseguiria. Suando de pingar, lindas que eram as coxas da menina, a descuidada dona da calcinha de florzinha amarela, ele nem mesmo nesses momentos tão importantes para um já quase cretino homem conseguia fazer sua mente aquietar-se. Ficava confabulando com seu eu interior se estaria ela fazendo de propósito, se seria inocente aquele cruzar de pernas, se o certo não era seria ele ir embora dali... O sempre confuso e agora entusiasmado Hilário se contorcia disfarçadamente no banco, tentando de todos os ângulos ver tudo que pudesse daquela delícia. O que ele não viu mesmo foi o namorado da donzela, atrás dele, roxo de ódio e pronto para esganá-lo. Constrangedor narrar o que ocorreu logo em seguida e durou uns cinco minutos porque ninguém queria apartar.

Nosso quase herói não conseguia sentir-se culpado nem merecedor forçado a descobrir que um bom bife tem serventia também cru. E que não era nada suculento em cima do seu rosto, definitivamente não era. Mudou só a rotina. Ficou em casa uns três dias, suspenso pelo diretor, mas só isso mudou; a Priscilinha ele não esqueceria. Ela sim era suculenta até crua! Na cara dele então...

domingo, 30 de março de 2008

ESCALDADO DE ESTRIQUININA

Ele queria que o tempo voasse, que passassem dez anos em um minuto. Esperava ansioso ser dono de si mesmo e viver uma vida que ainda não conhecia, mas que tinha certeza existia. O menino carregava em seu coração todo furado por punhais - pois, sendo sensível, machucava-se até com um não - a certeza de que iria viver intensamente, até os cem anos, e fazer tudo de que ainda não tinha idéia. De quebra, classificou e separou na mente seus sonhos das metas. O maior sonho: comprar o corcel setenta e três do Raul Seixas, ou ao menos um igual; sua maior meta, um objetivo imediato: ir ao espaço e ficar lá por dois anos.

Não tinha data pior para Hilário que o Dia das Crianças. Mesmo quando ainda era uma, prevalecia o que sua irmã caçula, Vânia, queria: churrasco e pequi no arroz às margens da cachoeira (que não passava de uma cascata, lembrou). Em seus dezesseis anos de vida, não recordava de haver ido ao zoológico da Capital ou a um observatório de astronomia, o que considerava ser um real ato de exaltação para o dia em que se comemorava o futuro do país. Água fria, gente rindo de suas barrigadas e solidão nas pedras distantes do amontoado de gente é o que restava ao ainda adolescente, quase homem e já cretino, um herói. Um dia seria dono de si, iria querer viver a intensidade que a vida devia ter, pensou.

Nada de nada com nada, Hilário não aceitava o fato do Cosmos ter absolvido seu nome e a realidade de seu signo astral. Carro cheio de feijão verde, cheiro que considerava insuportável o daquelas bolinhas amarelas em meio ao arroz de ontem, e a irmã pedindo espaço para pentear sua horrível falta de cachos, partiram rumo ao conhecido. Quem sabe uma nave guiada pela princesa Amidala pousaria bem no meio das árvores e o resgataria? Repensou.

Sentindo-se um estranho – natural por sê-lo – contou os segundos para livrar-se do colo do tio Amaro, que suava muito no banco de trás do fusca de seu pai. Quando já se preparava para desmaiar, chegaram. Eis que ainda meio tonto, o nosso quase herói vislumbra a definição de céu na terra: Aparecida. O que ela estaria fazendo ali? Mesmo da família, ainda que prima, não imaginava sua deusa em meio dos mortais fazendo programinha infeliz. Quis repetir ato já erroneamente cometido e correr. Sem surpresa, repensou. Ritual desesperador, passou as mãos em seu shortinho de tergal, enxugando a timidez e, mesmo lutando contra, deixou que suas pernas encaminhassem os pés até o seu destempero eterno. Já próximo, uma voz que saiu do cume de um absurdo morro ao lado grita por ela. Cidinha, assim a chamavam.

Um minuto, somente sessenta segundos impediram que Hilário vivesse uma vida inteira. A covardia lhe deu boas voltas, instalando novamente o cretino em seu caldeirão. Aparecida lhe sorriu e foi-se, correu ao encontro da amiga que a chamava. Hilário ainda pôde sentir a vontade de morrer em meio aos cabelos dela, que flutuavam no ar, em direção ao monte de terra e muito mato, para o encontro com o dragão que exigia sua presença. Ainda teve tempo de prestar atenção na flechada que entrava em seu peito, rasgando e perfurando seu ímpeto, mandada por Adoniran Barbosa, vindo direto do radinho de pilha do pai de Cidinha.

Suando frio, deitou-se no chão e cegou ao olhar para o céu escaldante. Então, sem o perceber, mas em voz audível, pediu, como se precisasse ser atropelado ou receber dose de veneno, estriquinina: – Vem Amidala, vem.

Mal sabia o pobre cretino e longe de já ser um herói que Aparecida, que fora estabelecido por ele que era sua, mas era a Cidinha de todos, chegando-se e sentando ao lado da amiga - que de tão feia até parecia mesmo um dragão - pôs-se a falar dele em segredo, revelando que estava apaixonada em seus quatorze anos, e que esperava aproximação. E de tão encantada, fitou o agora ainda mais cretino deitado, achando-o charmoso e irreverente, sem sequer imaginar que o tal caira por terra porque lhe faltara forças.

Ufa!!
Vírgula Antenada, 29/03/08


domingo, 2 de março de 2008

DJAVAN, EU GOSTAVA DE VOCÊ

Hilário estava cansado. Chegara ao Rio de Janeiro há cinco horas e ainda não estava recuperado do assalto seguido de morte do qual não foi vítima. Pegou ônibus errado, depois que um rapaz disse ser o certo, andou muito, mas nada de nada, não encontrava o mar. Ele duvidando (pensou)? Ninguém conseguiria inventar um oceano, nem a Rede Globo. Ou conseguiria (repensou)? Era do interior o confuso... Diziam que o homem na lua foi invenção... Talvez a lua fosse um globo enorme de discoteca... Bateu o joelho em alguma coisa e parou de pensar. Uma lixeira pequena quase arrebentou a rótula do cretino herói, mas a dor não o impediu de interessar-se pelo que estava escrito nela, o endereço de uma pensão que dizia ser de luxo e familiar. Olhou em todas as direções procurando alguma maneira de chegar a Botafogo...

Após mais de duas horas, agüentando quase todos os minutos desse fatídico tempo ao lado de uma senhora que suava muito e segurava um menino aconchegado em seus seios maiores que a lua, Hilário chegou ao bairro. Sentiu cheiro de sal e ficou feliz, mas não identificou o sentimento. Quase nunca sentia-se assim. O rapaz que guiava a van que o levara disse-lhe que seguisse em frente e chegaria ao lugar que era seu destino.

Mas o cosmos, que todos sabem absolvera mesmo seu nome, reservava infortúnio ao hoje homem em seus trinta e nove anos. De repente, mergulhou em devaneios e confundiu-se, embolando pernas e pensamentos, quando Djavan começou a cantar Oceano no MP3. Sua vontade de morrer ficou maior e apressou os passos. Subindo o início de uma escadaria, a música no fim, sentiu duas mãos pesadas em seu ombro, jogando-o em direção a um muro e fazendo com que caísse sentado. Hilário levantou a cabeça atordoado e avistou dois rapazes de chinelos e bermuda, armas enormes apontando para ele e rostos de lobo mal gêmeos. Um deles puxou o coitado e de novo o jogou contra o muro, perguntando quem era ele, o que queria e mais alguma coisa chiada que não dava para entender. Hilário colocou as mãos na cabeça e resolveu ficar calado, chegara o momento do que havia ido fazer ali.

Levou um primeiro tapa do soldado de chinelos que ainda não havia aberto a boca. Estalou. Levou o segundo do outro, o tirano falador, seguido de perguntas, e doeu mais desta vez. Não suportou. Com voz embargada e falando baixinho, Hilário explicou de onde era e para onde estava indo. Os rapazes se entreolharam e começaram a rir muito quando surge das sombras um terceiro guerreiro, ainda mais forte e assustador. Ele ergueu Hilário, olhou em seus olhos e disse que ali era a subida do Morro Dona Marta, que estranho não chegava assim, à noite, de tênis e som nos ouvidos, que não fosse emboscada da polícia ou playboy viciado. Hilário sacudiu-se, colocou toda sua pouca força nas pernas para que elas o segurassem e tentou parar a tremedeira de pavor. Os maus gêmeos se afastaram e o grandão abaixou-se, pegando a mochila do quase herói e entregando em suas mãos, que só conseguiram segurá-la depois da segunda tentativa. Ainda de cabeça baixa, balbuciou seu nome, talvez para confirmar que ainda estava vivo pois, pensou ele de novo, podia ser que se fizesse xixi nas calças no inferno. O homem à sua frente ouviu e lhe respondeu.

– Certo, Hilário... Meu nome é Gino. Conheço a Tia Morena, dona da espelunca. Fica ali ó, naquele prédio. Vamos, te levarei até lá. Vai que você se desvia do caminho e não queremos isso.

Hilário tentou dizer que a culpa não foi dele e sim do Djavan, mas achou que seria pior. O tal Gino poderia pensar que ele era um viciado.


Ufa!!
Vírgula Antenada, 02/03/2008



Recebi um selo de um amigão do Hilário, o Blogueiro muito massa Meerstempel Badist. Muito Obrigada mesmo!

Image and video hosting by TinyPic

Bom, meus indicados:

CÃO CHUPANDO MANGA

IPISIS LITTERIS


GROOELAND


NIELA BITTENCOURT


OUTRAS ANDANÇAS


POESES


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Esse Blog também foi indicado pelo Meerstempel Badist para esse MEME que irei postar aqui, copiando exatamente como está no Blog dele, Tudo Sobre Um Pouco:

Meme dos 100 méreis

Como funciona o meme?

O objetivo do meme é promover o blog com melhor conteúdo no brasil, que será eleito pelos blogs que postarem este meme indicando três blogs que merecem ganhar o prêmio. Todos os dias será atualizada a lista de blogs votados neste link. E no dia 11 de Março (terça-feira) às 23:00, será divulgado o blog vencedor.

Para participar basta:

  • Fazer um post divulgando o meme;
  • Indicar em seu post, 3 blogs que considere ter o melhor conteúdo no Brasil;
  • Colocar um link de participação do meme apontando para este post.
Meus indicados:
Cão Chupando Manga

Era Só Uma Menina

Tudo Sobre Um Pouco

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

SELOS!










Recebi do Cão Chupando Manga esses dois selos lindos! Johnny, obrigada mesmo!
Meus indicados são:

Grooeland
Um Franquilino Pernambucano
Sushi de Banana
Bomba MH
Los Fanfarões

domingo, 17 de fevereiro de 2008

ÍNFIMO INFAME

Ele acabava de sair de dentro dela. Gisa não era uma fêmea qualquer, era do time das mulheres de que independia o corte do cabelo, a ordem das constelações. Nosso hoje somente herói, nesse dia, estava em êxtase, literalmente. Soube que pele era rasgo bem cortado, dependendo da navalha. Devia ser a melhor trepada da vida dele, devia ser melhor que dar as costas para o Atlântico, melhor que dar as costas pro Planalto. Voava alto o cretino, morto em ressuscitação bacana. A pele inspirava uma falta de vergonha na cara, conveniência destilada e etílica, idas e vindas sôfregas e sofridas... Descobriu que era um masoquista e que, realmente, em seus quarenta e dois anos, queria morrer de vergonha, para sempre, engolido pela membrana suntuosa, frenética, enraivecida, encharcada e fluvial de mulher.

Está certo que foi para o Rio de Janeiro com o objetivo de matar-se, combinado que esperava pouco do resto da fatídica vida que lhe faltava para dar cabo, provável a verdade do aquilo que se apresentou fazendo dele um paspalho. Mas tudo tornou-se flexível. A fábrica de vida já parada reagiu, a máquina pôs-se a funcionar e Gisa, Gisa, Gisa, melhor marketig de rede verdadeiro e providencial, 100% nacional, ofereceu-lhe a possibilidade de abrir os portões, o que se explica na íntegra quando, cheia de manha, disse ao hoje quase homem que lhe abrisse primeiro uma perna e depois a outra, devagarinho, sem pressa, no mesmo ritmo do blues que ouviam.

Assim, fora de si, fora dela, fora dos eixos e sem saber qual fome ainda sentia, Hilário preocupou-se com o domínio do seu membro, que sentia vontade de explorar outras cavernas ou fazer morada naquela.

Foi quando Gisa levantou-se, pegou um CD do Arnaldo Antunes e, já vestindo seu jeans, disse que não conseguia dormir fora de sua cama, no seu casulo. A vespa que fora ferroada tranqüilamente foi-se, deixando-o, desta vez com cabimento, cretino herói, junto ao Arnaldo, rindo de Hilário, perguntando maliciosamente o porquê dele ainda querer aquela mulher.

Ufa!!

Vírgula Antenada

sábado, 16 de fevereiro de 2008

TEXTO EM VÍDEO NARRAÇÃO - TEMPO BLUES

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

VACA DISCREPANTE

(“Teu bom só para o oco, minha falta”)

Acordou molhado de suor, atravessado na cama, sem saber o paradeiro dos travesseiros e mergulhado em constatações. Hilário teve um pesadelo e o infeliz o despertou às duas e meia da madrugada. Devia parar de comer comida gelada antes de deitar-se e matar sua preguiça de vez. Quem sabe assim teria a grandeza de sonhar com os anjos. Queria matar, fosse qualquer coisa ou ser. Matar.. Logo ele, que nunca teve coragem de quebrar um copo, nem por descuido. Ouviu um barulho vindo da parte sala de seu quarto e ficou imóvel por instantes, rindo em seguida, relembrando que deixara seu PC ligado e Caetano a mandar chuva do mesmo bom sobre os caretas. Pensou em levantar-se e tomar um copo de leite morno, pegar um livro e ficar lá, estatelado na cama, até adormecer. Mas, leite – pensou – lembrava teta, livro lembrava o que estava terminando. Sentiu ódio insensato dele mesmo por estar nas últimas páginas de “A Casa dos Budas Ditosos” e ainda não ter um veredicto. O que falaria para aquela aluna bonitinha, novinha, com aquelas roupas esquisitas e sorriso de leoa? Como explicar que ainda não sabia o que dizer do livro, ou pior, como dizer a verdade? Em seus quarenta e quatro anos mal vividos e depois de inúmeras derrotas, estava lá o cretino herói, sem língua e apavorado, pois que ou iria causar risos na mocinha decotada que lhe emprestou aquela infame discórdia de atos ou acabaria por estalar seus ovos ao sentir a inferioridade diante dos argumentos e narração transloucada da mulher nefasta e discrepante do livro. Levantou e andou atordoado por seu quarto e sala. Pegou o livro e – repensou – largou de novo. Está certo e já entendido que o cosmos absolveu mesmo seu nome, mas aquelas páginas o levaram à ruína. Como uma mulher poderia ser capaz de gozar tanto dos homens, gozar tanto nos homens e fazer os homens gozarem tanto? Louca, perversa contraditória e criminosa, assim descrita por ela mesma e conseguindo que acreditemos ser deliciosa. De uma inteligência sublime. Deveria ser colocada amordaçada e com armadura numa masmorra lá do Vaticano. Ou deveria ele cheirar cocaína, entender tabelinha, aprender palavrões, comer a tia, criar uma cobra, viajar com hippies, ser estéril e... Não, comer a irmã não dava, definitivamente.

Descobriu que era quase puro e com ênfase pegou o livro, agora sossegado, sentando-se no sofá-cama. Terminaria o maldito atordoador, esperando conscientemente que uma mulher como aquela aparecesse em sua vida ou, pelo menos, que encontrasse Ubaldo na rua para perguntar o porque de se rebaixar o time daquela maneira. Hilário achou que não poderia ficar pior sua vida depois que terminasse a história.

Ufa!!
Vírgula Antenada, 13/02/08